Pensadores da crítica literária

Nesse mês de julho em que o centenário de nascimento de Antonio Candido tem nos acalentado a memória,

Nesse mês de julho em que o centenário de nascimento de Antonio Candido tem nos acalentado a memória, puxo mais um de seus fios para tratar de uma particularidade do escritor em relação à América Latina. Falo precisamente de sua amizade com o crítico uruguaio Ángel Rama, a quem Candido conheceu nos idos de 1960, quando esteve pela primeira vez em Montevideu para ministrar aulas sobre literatura brasileira na Universidad de la República.

A empatia entre eles aconteceu à primeira vista, quando Rama, então editor e crítico literário do semanário Marcha, convidou Candido para uma conversa inicial sobre literatura, ali mesmo na capital uruguaia. Desde então, os dois mantiveram uma estreita amizade que perpassou o campo das discussões acadêmicas e das relações interpessoais.

De temperamentos e idades distintos, – Candido era oito anos mais velho que Rama-, ambos tinham em comum a disposição de refletir, pensar e discutir os rumos da literatura. E foi por essa causa que a literatura brasileira passou a ser entendida como parte integrante da literatura latino-americana, deixando de ficar isolada entre os leitores hispanofalantes.

As relações de vizinhança entre a literatura brasileira e o restante dos países da América Latina também foram o fio condutor para projetos em conjunto de ambos, como a criação da coleção Biblioteca Ayacucho, que reuniu 250 títulos de autores latino-americanos, incluídos os autores brasileiros, e que se encontra disponível em: www.bibliotecayacucho.gov.ve.

Rama, ao lado de Marta Traba, sua segunda esposa, artista plástica e crítica de arte, e Candido desfrutaram de momentos marcantes de um relacionamento de amizade ímpar, que permitiram entre tantas experiências, a convivência como hóspedes na casa de Candido em São Paulo, no bairro do Itaim. Ocasião em que o rigor dos pesquisadores não foi quebrado e ambos encararam a rotina diária de cinco horas de trabalho, sentados à beira de suas máquinas de escrever, em busca da concretização de outro grande e ambicioso projeto intelectual em comum, a criação de um Centro Latino-Americano e a realização de uma obra maior sobre a história da literatura do nosso continente. Projetos interrompidos com a morte de Rama, em 1983, mas que chegaram a realizar-se em parte, com a publicação da trilogia América Latina Palavra, Literatura e Cultura, coordenada pela professora Ana Pizarro.

Mantidos à distância, uma vez que Rama, após o golpe militar do Uruguai em 1973 foi obrigado a deixar o país, passando a atuar como professor visitante em universidades entre a América Latina, o Caribe, os Estados Unidos e a Europa, os dois se mantiveram nutridos em trocas de ideias e afetos por uma intensa  correspondência, que mereceu uma publicação, organizada pelo professor uruguaio Pablo Rocca.

Nessa trajetória de amizade, Candido e Rama tiveram outro ponto em comum, a atuação na imprensa. Cada um em seu tempo, eles foram críticos literários de jornal. Candido assinou no período de 1943 a 1945, na extinta Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo) e em seguida no Diário de S. Paulo, um texto semanal chamado Notas de Crítica Literária, espaço onde, segundo suas palavras, exerceu a função de “um crítico militante na medida em que fornecia ao público leitor uma iniciação à literatura”. Ali nas páginas do jornal, sob o olhar crítico de Candido, despontaram autores como Clarice Lispector, Ledo Ivo, Jorge Amado e João Cabral de Melo Neto, entre outros.

Já Rama, que seguiu nas páginas dos jornais ininterruptamente do início dos anos 1940 até sua morte, ficou mais de 20 anos no semanário uruguaio Marcha, publicação em que exercia o duplo de papel de editor e crítico literário. Ali, nas páginas do tabloide, exerceu o que o amigo Candido chamava de profissão de alto risco, apostando no talento de novos autores. Como aconteceu com Felisberto Hernández, Juan Carlos Onetti, Clara Silva, Armonía Sommers e Francisco Spíndola, que começavam a despontar nas letras latino-americanas na década de 60.  Dono de um estilo diferente ao de Candido, o crítico uruguaio, nas  palavras do amigo brasileiro, “foi, sobretudo, um pensador da literatura mais do que um crítico jornalístico”.

Sobre Joana Rodrigues

Doutora e Mestre pelos Programas de Pós-Graduação de Literatura Brasileira e Letras Modernas (FFLHC/USP). Professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo, onde ministra aulas de Literaturas Hispano-Americana e Espanhola nos cursos de Letras e de História da Arte no campus Guarulhos. Deu aulas na pós-graduação e na graduação dos cursos de Gestão em projetos culturais no CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos de Cultura e Comunicação da ECA/USP) e na Universidade São Judas Tadeu (Jornalismo e Publicidade e Propaganda). Como jornalista (Cásper Líbero), atuou em jornais (Notícias Populares, Jornal da Tarde) e em revistas (Interview, Contigo, Nova), dividida entre a redação, a reportagem, a chefia de reportagem e a editoria-chefe. Como pesquisadora tem se dedicado ao tema das relações entre Literatura e Jornalismo a partir de sua dissertação de mestrado intitulada Literatura e Jornalismo em Gabriel García Márquez: Uma leitura de Crônicas (2011).