Chilenas em tempo de diversidade

Março é tempo de feminilidades. Mas, em se tratando do século XXI, é tempo também de diversidades. Foi

Março é tempo de feminilidades. Mas, em se tratando do século XXI, é tempo também de diversidades. Foi no universo feminino que a transatriz chilena Daniela Vega, ao revelar seu talento para as câmeras, consagrou-se em Uma mulher fantástica, levando consigo e para o seu país a indicação de melhor filme estrangeiro desta temporada do Oscar.

Trata-se de uma investida ousada do cineasta Sebastián Lelio, compatriota de Vega, que traz o duplo questionamento sobre o talento da protagonista e a causa em si, o lugar do trans na sociedade atual.

No entanto, a consagração de Vega no plano artístico não se estendeu para o plano da cidadania, já que a prefeitura da cidade de Ñuñoa, a 40 km de Santiago, voltou atrás da decisão de conceder o título de cidadã ilustre à atriz, justificando que ela segue com seu documento de identidade com nome e gênero masculino. “Afinal para quem estamos concedendo a homenagem: para o homem da identidade ou para a mulher que está nas telas?”, justificou-se o prefeito.

O fato ocorrido na cidade onde Vega passou boa parte da infância ajudou a recuperar na memória a imagem de um país que muito ainda tem por ajustar-se frente às questões de preconceitos. Faz pouco mais de 50 anos que o Chile tentou abafar a intolerância junto a uma de suas figuras mais expressivas de sua cultura, a escritora Gabriela Mistral.

Ela, que no documento de nascimento era Lucila de María Godoy Alcagaya, sofreu desconfortos afetivos, morais e intelectuais em sua terra natal, apesar de ter sua obra reconhecida pela Academia Sueca, que lhe concedeu o Nobel de Literatura em 1945, pela primeira vez a um latino-americano. Somente cinco anos depois conquistaria o Prêmio Nacional de Literatura entregue pelo governo chileno.

Com traços marcadamente indígenas de sua origem pobre na pequena Vicuña, recebeu uma constante de contrariedades, numa espécie de rosário de preconceitos da sociedade de seu país. Talvez por ter prosseguido na condição de mulher solteira, talvez por declarar-se veemente opositora ao fascismo que tomava a Europa em 1932, quando ela assumira o cargo de cônsul em Gênova.

A carreira diplomática concedeu-lhe muitos amigos poetas pelo mundo, como Pablo Neruda, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles e Victoria Ocampo, essa última responsável pela publicação de seu primeiro livro de poemas, Tala, editado em Buenos Aires.

Assumidamente uma viajante, sem porto fixo, teve na maternidade não biológica um arremedo de suas realizações femininas. O filho adotivo Juan Miguel, apelidado de Yin Yin, que, entre informações obscuras, poderia ter sido um sobrinho, suicidou-se aos 18 anos quando vivia em companhia de Gabriela, na época cônsul chilena no Brasil.

Nesse ir e vir, desde os anos 1920, até sua morte em 1957, em Nova York, Gabriela Mistral teve a presença muito próxima de algumas mulheres como suas assistentes. Na temporada mexicana, foi a artista plástica chilena Laura Rodig; nos últimos dez anos de vida, a americana Doris Dana, responsável pela preservação e organização de seu acervo, que inclui 563 itens – entre manuscritos, cartas, fotografias e documentos particulares – hoje disponíveis no Arquivo do Escritor na Biblioteca Nacional do Chile, em Santiago. Parte da correspondência foi dedicada à Dana, que antes de sua morte, em 2006, destruiu dezenas de cartas trocadas entre as duas. Ela sempre se esquivou de respostas objetivas sobre sua relação amorosa com Mistral. Mas está justamente na intimidade afetiva entre elas a temática do documentário Locas Mujeres, de María Elena Wood.

Dona de uma obra vigorosa, Mistral, que já na juventude dos anos 20 colaborava com jornais locais de sua cidade no Valle del Elqui, continua sendo responsável pela formação poética de um sem número de chilenos e latino-americamos. Sua poesia de cadências marcadamente humanísticas traz marcas políticas, temas contundentes como a solidão, o luto e o amor não correspondido.

Icônica figura no universo das letras de nosso continente, Gabriela Mistral faz falta em tempos atuais de feminilidades e de diversidades. No entanto, sua obra segue falando por todos os gêneros.

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Sobre Joana Rodrigues

Doutora e Mestre pelos Programas de Pós-Graduação de Literatura Brasileira e Letras Modernas (FFLHC/USP). Professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo, onde ministra aulas de Literaturas Hispano-Americana e Espanhola nos cursos de Letras e de História da Arte no campus Guarulhos. Deu aulas na pós-graduação e na graduação dos cursos de Gestão em projetos culturais no CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos de Cultura e Comunicação da ECA/USP) e na Universidade São Judas Tadeu (Jornalismo e Publicidade e Propaganda). Como jornalista (Cásper Líbero), atuou em jornais (Notícias Populares, Jornal da Tarde) e em revistas (Interview, Contigo, Nova), dividida entre a redação, a reportagem, a chefia de reportagem e a editoria-chefe. Como pesquisadora tem se dedicado ao tema das relações entre Literatura e Jornalismo a partir de sua dissertação de mestrado intitulada Literatura e Jornalismo em Gabriel García Márquez: Uma leitura de Crônicas (2011).