IP Brasil – Opinião: Sociedade apoia intervenção, mas não passa cheque em branco

Com 56% de positividade em fevereiro, a intervenção federal no Rio de Janeiro e a segurança pública ocuparam

Com 56% de positividade em fevereiro, a intervenção federal no Rio de Janeiro e a segurança pública ocuparam um terço de todo o debate entre opinião pública e formadores de opinião desde que foi anunciada

A intervenção federal no Rio de Janeiro e o debate sobre segurança dominaram o debate nas redes sociais e na imprensa, tanto na opinião pública quanto entre os formadores de opinião, grupo que inclui imprensa e influenciadores. A avaliação da sociedade sobre o assunto tem 56% de positividade em fevereiro, aponta o IP Brasil – Opinião, índice elaborado pela agência .MAP que mostra a percepção da sociedade em relação aos principais temas da atualidade. É uma positividade significativa. Para comparar, o Índice de Positividade, IP Brasil – Opinião geral, que considera todos os temas analisados, encerrou o mês de fevereiro com apenas 35% de positividade, no limiar do nível de crise, onde se encontra desde junho do ano passado. Só para lembrar, foi logo após vir a público a gravação que Joesley Batista fez de sua conversa com o presidente Michel Temer.

O manifesto de apoio a uma medida firme contra a crise de segurança no Estado não vem, no entanto, em forma de “cheque em branco” para o governo, que terá de mostrar resultados. A sociedade apoia a ação e defende que “quem não deve não teme”, referindo-se às checagens realizadas pelas tropas militares às pessoas. Ainda assim, está vigilante quanto a possíveis abusos, como em relação à revista de mochilas escolares de crianças das comunidades ou a uma suposta seletividade racial nessas abordagens. Um exemplo desse tipo de debate foi o caso envolvendo a judoca Rafaela Silva, medalhista de ouro na Olimpíada Rio-2016. Na semana passada, ela publicou em suas redes sociais que o táxi em que estava foi abordado por policiais que teriam perguntado ao taxista onde ele a pegou. O motorista explicou que ela era uma atleta e que havia pegado o táxi no aeroporto. “Ah, tá… Achei que tinha pegado na favela”, teria dito o policial. O episódio mostra que a questão da segurança pública não está restrita apenas à violência, mas toca em outro tema sensível para a sociedade, que é o debate em relação à diversidade.

Esses assuntos vieram para ficar. Os temas relacionados ao Bem-Estar, que incluem, entre outros, segurança e diversidade, tiveram participação de 38,8% no IP Brasil – Opinião de fevereiro, acima dos 34,8% registrados no mês anterior. Política ainda é o tema com a maior participação (46,2%), o que não surpreende em um ano de eleição. Quando excluímos os formadores de opinião, no entanto, o quadro se inverte, com Bem-Estar ocupando 49,5% do debate e política, 36,5%. Mostra que a população está mais preocupada com o que tem impacto direto no cotidiano e leva a questionar sobre um possível distanciamento dos formadores de opinião – imprensa inclusive – na cobertura desses temas. As reportagens e análises estão dando voz à sociedade e contemplando a sua percepção?

Fonte .MAP

Uma crise “sem surpresas”

Observando os resultados do IP Brasil – Opinião, Herón do Carmo, professor da Fipe-USP e consultor da .MAP, conclui que estamos em uma crise “que não surpreende”. Com positividade de 35% em fevereiro, o índice está no limiar do patamar de crise e oscila em torno desse número desde junho do ano passado. O número reflete problemas que já são conhecidos e não mudaram: a falência do aparato do Estado no atendimento à população, a corrupção, o fracasso do governo em fazer as reformas prometidas, como a previdenciária e a política.

Ainda que a positividade em relação à política tenha subido no último mês, de 23% em janeiro para 36% em fevereiro, o histórico mostra uma tendência de queda para esse assunto. Contribui para o resultado a crise do último dos poderes que ainda angariava o apoio da população: o Judiciário. As revelações sobre os pagamentos de auxílio-moradia aos juízes e outros benefícios negados ao restante da sociedade, além do esfriamento da Lava Jato, levaram o Judiciário e o STF a uma positividade de apenas 11% em fevereiro.

Outro dado importante é a positividade do próprio presidente Michel Temer, que ainda não conseguiu transferir a popularidade da intervenção para si e marcou apenas 2% em fevereiro. A partir de agora, a .MAP começa a acompanhar também, não apenas a positividade do presidente, como a do governo como um todo, de forma transversal, perspassando todos os assuntos que dizem respeito à atuação do Executivo, em todas as áreas.

 Evolução do IP Brasil – Opinião

Debate sobre a diversidade se amplia e ganha intersecção com outros temas

Entre os 11 temas que tiveram maior participação no IP de fevereiro, quatro estão relacionados à diversidade. São manifestações ligadas ao machismo, feminismo, homofobia e racismo. O assunto tem a segunda maior participação no índice (18,3%), com positividade de 40%.

O debate no entanto, se amplia e tem desdobramentos em outros temas, como emprego, moda, costumes e serviços. Um exemplo foi o caso de Yasmin Estevam, uma jovem de 22 anos que relatou, no programa de Fátima Bernardes, na TV Globo, que acredita não ter sido selecionada para uma vaga de emprego por causa do seu cabelo e pelo fato de ser negra. Com 47 mil seguidores no Instagram, a opinião pública se dividiu sobre o tema e abriu espaço para discutir o que é ou não preconceito. Enquanto parte concorda com a avaliação de que deixar de ser escolhida para uma vaga de emprego por causa do cabelo é uma forma de preconceito, outra parte considera que a não aprovação pode ter se dado por outros motivos, como o fato de que as empresas têm suas próprias normas em relação a como seus funcionários devem se apresentar. Há também questionamentos sobre o que consideram um excesso do “politicamente correto”, não apenas neste caso específico, mas no debate da diversidade como um todo.

Para a população, economia ainda é sinônimo de emprego

Em um mês de poucas surpresas, economia tem baixa participação no índice, apenas 15% em fevereiro. A positividade sobre o assunto também é pior do que em relação à política e bem-estar: 21%. A percepção da opinião pública (13% de positividade) é pior do que a dos formadores de opinião (27%) em relação aos temas de economia. O motivo não é novidade: emprego. Enquanto os formadores de opinião olham as perspectivas razoavelmente positivas para a economia do país, a opinião pública novamente puxa o debate para aquilo que tem impacto direto na sua vida.

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