A notícia está morta. Viva a notícia!

Em breve teremos que pagar – e muito dinheiro – para termos acessos às notícias de fatos reais,

O candidato é mesmo o mais gabaritado e tem ficha limpa, atestada por institutos de reputação igualmente ilibada? O sabão em pó realmente limpa e realça mesmo o branco? A companhia telefônica ou empresa de tv por assinatura oferece produto verdadeiramente comprometido com causas sociais? O automóvel está mesmo afinado com as mais eficientes tendências de redução de combustível e apresenta tecnologias para segurança do condutor e acompanhantes? O valor pago no pedágio é mesmo empregado nas estradas? Em breve teremos que pagar – e muito dinheiro – para termos acessos às respostas desse tipo de perguntas e de outras. Notícias de fatos reais, sem maquiagem, nem interpretações, situação bem rara, daí a incidência do fator inflacionário, ganharão alto valor.

As indicações nesse sentido estão associadas à ocorrência de fake news.  Cada vez mais constantes, escancarando uma estratégia que pode estar ligada a governos (vide Trump/EUA/Rússia) ou às principais companhias noticiosas do mundo em busca de valorizar seu produto (a notícia), surgem inocentemente, quando incautos espalham aquilo que sua personalidade e  (falta de) formação quer entender como verdade. Podem ser passos estrategicamente estimulados. Nesse caso, a viralização tem claros objetivos: realçar qualidades daquilo que ganhará status de fato verídico ou atacar concorrentes, cuja atuação, espontânea ou arquitetada, ganhou espaços nobres nas mídias.

Assim, está em jogo manter o valor de mercado da notícia – e sua escassez vai trazer maior valorização. No âmbito dos bits, o momento é a gênese do processo de destruição de fontes e publicações de alta penetração hoje, mas de vida efêmera. Entram aqui sites, blogueiros, youtubers e outras netpersonalidades que surfam na onda da tecnologia digital. A guilhotina deles é o surgimento de um tal de selo de qualidade, que não está tão distante assim: filhas do atual processo de esvaziamento das redações, já existem empresas especializadas em checar fake news (sic).

O paradoxo está na descoberta das fake news de protagonistas digitais como replicadores das notícias falsas que a imprensa dita “respeitável” geralmente também publica, em deslizes humanos, suspeitos ou não.

Tal situação pode-se e deve-se projetar também no mundo da Cultura e Comportamento. Centenas de artistas são crias das fake cult news. Muitos deles já queimaram a placa-mãe de sua CPU artística ou estão à beira desse fato acontecer. Antes do mundo digital lhes dar um pau de vez, alguns, espertamente, saltaram para outras plataformas, seja em forma de garoto-propaganda em campanhas publicitárias ou em palcos nos intragáveis shows e stand-up comedy. Como a história se repete, acontecerá com eles o que aconteceu com a maioria dos VJs da extinta MTV (alguém se lembra de alguns deles, ou mesmo da emissora?).

Sobre Antônio Mafra

Jornalista com mais de 35 anos de profissão. Atuou nas redações de O Globo, Revista Visão e Jornal da Tarde. Foi assessor de imprensa da Firestone, da Secretaria do Planejamento e da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Integrou a diretoria da Associação Brasileira de Marketing Promocional (AMPRO) e foi editor e publisher da revista Viver Psicologia. Desde 1989 está à frente da Textos & Ideias Comunicação, onde desenvolve também atividades de criação e produção de eventos socioculturais. Complementou sua formação acadêmica com o Master of Business and Administration Economia do Turismo pela Fipe - USP, onde também fez o curso de História (incompleto). Dá aulas de Escrita Possível e há mais de dez anos promove Cultura para seu grupo Amigos da Cultura.