Métis reforça a importância do convívio

Em tempos de redes sociais e um imenso aparato tecnológico, o que faz a diferença para os estudantes?

No universo mítico grego, mortais e imortais partilhavam da métis (aqui como conhecimento e inteligência) de maneira praticamente igualitária. Não porque ela seria fruto de um bom senso igualmente atribuído em todos os âmbitos desde o Olimpo até os reinos mais distantes, mas porque a repartição dos poderes da métis entre diferentes figuras acarretava, inevitavelmente, a disseminação do poder do conhecimento. O historiador Jean-Pierre Vernan esclarece ainda que, por ser polimórfica e tão diversa, a métis encontrava meios de aplicar-se nos múltiplos saberes de que deuses e mortais nutriam-se e mutuamente tutelavam.

Na diversidade da ação da métis, nascia a figura do didaskalos (aquele que ensina coisas belas, mestre, professor). Os discípulos encontravam-se com ele algumas vezes por semana. Cada encontro era regido pela exposição de algum tema trazido pelo mestre, o entendimento dos discípulos, debate e, finalmente, elaboração de ópus (exercício de criação intelectual). O que muito assemelha-se à condução de uma aula por um professor de hoje.

Com a advento da EAD (educação a distância) a métis encontrou mais uma forma de disseminação com o uso da tecnologia digital. Num dado momento, o que parecia ser algo particular e de interesse específico ganhou fôlego e importância na medida em que a internet possibilitou uma tecnologia de comunicação rápida e eficaz. A escola, sempre ressabiada, demorou um tempo, legítimo por sinal, para incorporar essa nova ferramenta ou possibilidade de construção do conhecimento.

Alguns professores pioneiros implementaram experimentalmente, para além dos cursos presenciais, módulos de estudo e aprofundamento, em que os alunos poderiam de forma muito autônoma gerirem seus próprios estudos. O sucesso dessas experiências abriu às escolas possibilidades jamais pensadas. O atrativo do computador e a riqueza de filmes, imagens e textos e hipertextos conduziram uma verdadeira legião de professores e alunos para a exploração de plataformas digitais dentro das escolas. O presencial e o virtual passaram a partilhar a construção do conhecimento e, no giro de poucos anos, todos os professores das escolas, principalmente as particulares, puderam contar com a contribuição dessa lúdica e poderosa ferramenta.

E então, fizeram-se as redes sociais – frase que depois de então, fez-se o verbo tornou-se ponto de referência da contemporânea métis. As redes demoliram e recriaram o conceito de partilhar e disseminar conhecimento. Destituíram poderes, tutelas e hierarquias, amplificaram as vozes dos discursos e reinventaram o didaskalos sobre um palanque virtual munido de câmara de celular e narcisismos.

Num papo direto e franco com alunos, perguntei-lhes da importância do portal de Literatura que, com muito esmero, procuro alimentar com sugestões de vídeos, filmes, peças teatrais, poesias e contos. Ofereço uma gama rica de artes que alimentariam a curiosidade e a vontade de ir além das aulas presenciais de qualquer aluno. A resposta foi clara “não tem tanta importância”. Destacaram: “só a página que você coloca os roteiros de estudo e matéria da prova”. É importante saber que quando um adolescente, educadamente, diz “não tem tanta importância” significa “não tem importância alguma. Zero”. Mas, antes mesmo que eu pudesse mergulhar na decepção do investimento na prática virtual, decido não abandonar o portal, que me é caro, mas torná-lo ainda mais instrumento que consolide as aulas e proponha exercícios de ópus.

Noutra aula, os alunos complementaram a resposta dada de forma tão enfática, revelando-me que mais importante eram as aulas presenciais, o encontro, a leitura em voz alta dos textos, a apreciação coletiva de imagens e filmes, debates e discussões…, tudo ali naquele momento sagrado de nossas manhãs na escola. Didaskalos e os discípulos, métis: a Literatura, o mundo dos múltiplos saberes tutelados pelo coletivo da sala de aula.

 

Sobre Fábio

Mitólogo e professor de Língua e Literatura Portuguesa. Já atuou nos principais colégios paulistanos, entre eles o Nossa Senhora das Graças (Gracinha) e Colégio Santa Cruz, onde ainda leciona. Bacharel em Letras e pós–graduado em Linguística na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo, tem Licenciatura plena em Língua Portuguesa pela Faculdade de Educação e cursos e especializações em Filosofia e Literatura no século XIX, Linguística Românica e Cultura e Filosofia grega, todos também na USP. Como mitólogo, proferiu palestras e deu cursos de Filosofia e Mitologia na USP, na PUC, na Faculdade Ibero-Americana de Letras e Ciências Humanas, na Universidade Mackenzie, no Grupo de Estudos Yunguianos, todos em São Paulo, e no Instituto de Medicina Psicossomática do Rio de Janeiro. Na Itália, deu cursos de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira, em institutos e escolas da Toscana. Integrou o núcleo de formadores em Educação Transdisciplinar da Escola do Futuro (USP).