Você sabe o que acontecerá amanhã? Não precisa queimar neurônios em busca da precisa resposta. Antes de encontrá-la, respondo: precisa apenas observar, à sua volta, a mídia social, a cor, o tempo, o sabor, a luz, o calor. A resposta pode estar na hora, no minuto, no segundo seguinte. A mudança, as novidades, os novos comportamentos, enfim, as tendências vêm numa velocidade impressionante. Há sinais muito evidentes e muito impactantes dessas mudanças em curso, a influir futuros passos, futuras vontades, futuras compras.

Acostume-se. Dependendo do ângulo que se vê; do gosto adquirido, da posição sociopolítica defendida, tudo pode ficar melhor – ou pior. Calma. Sem desespero.

Para, no mínimo, ficar menos decepcionante e evitar arrependimento ao adotar a complacência como forma de viver, são recomendáveis duas leituras: “O ócio criativo”, livro do sociólogo Domenico De Masi, e “A utilidade do inútil”, obra do filósofo italiano Nuccio Ordine. Desse último, se a preguiça for maior que a necessidade, pode-se ler apenas alguns dos pequenos capítulos. São pílulas de ótimas reflexões. Os dois autores ajudam a formar um pequeno guia para se evitar crises de identidade se a opção é desconsiderar a novidade e evitar vida a mil por hora que a futura temporada quer impor.
Vamos nos ater às situações referentes às mudanças em curso. Décadas atrás, impressionava a qualquer um ver cadáver (ou a violência física) nas ruas. Pais e mães ciosos tapavam os olhos dos filhos, como se fosse possível anestesiar a geração futura. Não sabiam que aquela visão viria a se vulgarizar: fotos e vídeos de diversas situações de morte e de violência surgem em profusão na mídia tradicional e ocupam nos net-arquivos pessoais.

Em 2015, a filósofa norte-americana Judith Butler falou no Teatro Castro Alves, em Salvador, para 1.500 pessoas. Admiração total. Nenhuma manifestação contra sua presença. Aquela circunstância não estava contagiada por pessoas contrárias à sua “ideologia de gênero”, como ocorreu à frente do Sesc Pompeia, em São Paulo, dia 07 de novembro. Ali, as cinco dezenas que fizeram plantão e protesto. Ignorantes do verdadeiro conteúdo de sua palestra e, com acertada decisão, ignorados pela instituição paulista, não tiveram efetividade no intento de cancelar a palestra dela. Porém, as cerca quarenta pessoas ali reverberaram nas mídias sociais e o fato ganhou maior projeção. Outros milhares de ignorantes da filosofia de Butler acionaram seus megafones virtuais e detonaram a mulher. Viralizou a manifestação. Vulgarizou a idiotia.

Cientes da velocidade que a informação – e da mudança que podem provocar – governos, partidos políticos, pessoas com perfil de poder de qualquer tipo e, por que não incluir?, até mesmo empresas incentivam o surgimento dos robôs e trolls – e os usam. A @SouthLoneStar, que parecia ser texana e a @TEN_GOP, também norte-americana, tornaram-se famosas recentemente. “Eram duas entre milhões de contas fraudulentas comandas a partir da Rússia, na mais famosa fazenda de trolls do planeta: a Internet Research Agency”, conforme relata matéria do El País.

Qual é a finalidade? Propaganda. Até aí, nada demais. Propagar o que for verdadeiro, ótimo. O problema é que essa ferramenta anda espalhando fake news. Verdadeiros (sic) “exércitos de formadores de opinião”, já foram empregados por cerca de 30 países. A tônica tem sido reprimir a dissidência e promover uma agenda antidemocrática. Nesse momento, robôs e trolls podem estar à sua procura. Já comprou uma camiseta hoje? Um novo televisor? Um sofá? Já planejou sua viagem pro point turístico indicado por um blogueiro? Um curso? Tem certeza de que a decisão corresponde ao seu gosto/necessidade pessoal ou está apenas seguindo o que a tendência artificialmente determinou.

Sobre Antônio Mafra

Jornalista com mais de 35 anos de profissão. Atuou nas redações de O Globo, Revista Visão e Jornal da Tarde. Foi assessor de imprensa da Firestone, da Secretaria do Planejamento e da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Integrou a diretoria da Associação Brasileira de Marketing Promocional (AMPRO) e foi editor e publisher da revista Viver Psicologia. Desde 1989 está à frente da Textos & Ideias Comunicação, onde desenvolve também atividades de criação e produção de eventos socioculturais. Complementou sua formação acadêmica com o Master of Business and Administration Economia do Turismo pela Fipe - USP, onde também fez o curso de História (incompleto). Dá aulas de Escrita Possível e há mais de dez anos promove Cultura para seu grupo Amigos da Cultura.