Muitos anos depois de ir e voltar para os rascunhos de um novo romance, o escritor Gabriel García Márquez teve um insight derradeiro enquanto passeava com a família por Acapulco. Por conta disso, interrompeu as férias e se confinou no cubículo improvisado com uma parede falsa erguida na sala de sua casa.

No minúsculo espaço, o pai de Rodrigo e Gonçalo só não abriu mão de levar os meninos ao colégio, porque do resto desligou-se por completo para mergulhar no universo mágico das aventuras dos Buendía, retratado em Cem Anos de Solidão.

Foi então que Gabo deu à esposa Mercedes a incumbência, também mágica, de responder pela administração do lar para os 18 meses que se seguiram àquele agosto de 1966, com a quantia de cinco mil dólares. E sob o desafio de garantir aluguel, cama, mesa e roupa lavada ao clã, seis meses depois do início do confinamento do marido, ela começou a epopeia de penhorar e vender o que tinha à mão, incluindo o carro e a aliança de casamento.

A rigidez da rotina que o fazia sentar frente à máquina de escrever às seis da manhã, era quebrada depois das oito da noite, quando Gabo recebia com muita frequência amigos como Jomí García Ascot e Maria Luísa Elío, casal a quem dedicou o livro.

Sensibilizados pela precária situação financeira do casal, outros amigos, como os escritores Álvaro Mutis e Carlos Fuentes, não passavam da porta para dentro sem reforços líquidos para molhar as palavras do interlocutor.

Foram noites e noites de relatos detalhados sobre a nova história ambientada em Macondo. Foram muitas as lágrimas nas despedidas dos personagens, em especial no dia em que Gabo teve que dizer adeus ao coronel Aureliano Buendía. Mas foram também muitas as gargalhadas que acompanharam o escritor na solitária ação de dar vida aos 17 Aurelianos presentes nos 20 capítulos da obra.

Até que chegou o dia de enviar os originais do livro para a Editora Sudamericana. Mas, na agência do correio, o casal se deu conta que não tinha os 83 pesos para pagar o envio das 590 páginas datilografas da Cidade do México para Buenos Aires.

Foi então que Gabo e Mercedes decidiram dividir a despesa e a montanha de papel. No lufa-lufa da tensão do momento não se deram conta naquilo que o editor argentino lhes alertava dias depois,  a parte da trama que lá chegou era a parte final do livro.

Ou seja, a parte inicial do romance havia ficado com os García Márquez. Sem um tostão, para resolver o impasse obtiveram os 48 pesos faltantes vendendo os últimos exemplares do patrimônio de eletrodomésticos que dispunham: o aquecedor elétrico, o secador de cabelo e o liquidificador.

A quase tragicomédia teve final feliz no ano seguinte, 1967, quando a editora de Paco Porrúa decidiu publicar Cem Anos de Solidão, garantindo assim à família a volta das três refeições diárias e o pagamento do aluguel atrasado.

Cinquenta anos depois, frente a um pelotão de homenagens, com direito a leituras de trechos em lugares públicos no mundo inteiro, o romance vem sendo lembrado em minguados momentos no cenário cultural brasileiro. O nosso país deu as costas para a obra que ultrapassou os 30 milhões de exemplares e vem sendo lida em 40 idiomas para os quais foi traduzida.

A essa altura do calendário, pergunto aqui com meus botões de leitora e de professora, se a razão para tal esquecimento não seria explicada pelos mesmos sintomas das pestes que acometeram os habitantes de Macondo, acometendo de amnésia a nossa memória latino-americana.

Sobre Joana Rodrigues

Doutora e Mestre pelos Programas de Pós-Graduação de Literatura Brasileira e Letras Modernas (FFLHC/USP). Professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo, onde ministra aulas de Literaturas Hispano-Americana e Espanhola nos cursos de Letras e de História da Arte no campus Guarulhos. Deu aulas na pós-graduação e na graduação dos cursos de Gestão em projetos culturais no CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos de Cultura e Comunicação da ECA/USP) e na Universidade São Judas Tadeu (Jornalismo e Publicidade e Propaganda). Como jornalista (Cásper Líbero), atuou em jornais (Notícias Populares, Jornal da Tarde) e em revistas (Interview, Contigo, Nova), dividida entre a redação, a reportagem, a chefia de reportagem e a editoria-chefe. Como pesquisadora tem se dedicado ao tema das relações entre Literatura e Jornalismo a partir de sua dissertação de mestrado intitulada Literatura e Jornalismo em Gabriel García Márquez: Uma leitura de Crônicas (2011).