Segurança, Educação, Saúde, Economia, Transporte Público são temas que alimentam as promessas dos políticos. O lote, que já incluiu a Ecologia em recentes momentos, passa a ter mais um integrante: Comportamento. Desprezado como assunto de debates até pouco tempo atrás, vai tornar-se obrigatório, conforme indicam fatos recentes. No seu bojo, inclui-se a Cultura.

No balaio do Comportamento entram o machismo, o feminismo, o preconceito, o racismo, a homossexualidade e as questões de gênero – com destaque para a ascendência dos transgêneros, hoje tema de novela global, série em TV fechada e capa de revista nacional. Embora permeassem conversas, esses assuntos nem sempre saíam das esferas de baixo alcance. Dormiam tranquilos no sono da sociedade. Qual o motivo de, agora, passarem a despertar a importância nos destinos da nação?

A resposta é simples. Anos atrás, admirava-se ou repudiava-se à boca pequena tais manifestações. O advento das mídias sociais mudou o panorama. Suas plataformas já não expõem exclusivamente selfies e fotos de iguarias, animais e cenários fofos. Passaram a funcionar como megafones e multitelas dos que têm ou acham que têm razão. Dos que passaram a ter coragem de se expor. Essa coragem encontra eco na existência, publicidade ou exibição de seus pares admirados, personalidades eternas ou efêmeras, exploradoras ou explorados de facebooks, instagrams, twitters, blogs e outras modas digitais.

Laerte, Ney Matogrosso, Rogéria, Liniker, Johnny Hooker e Lea T, alguns desses pares, contribuem para que a questão do comportamento assuma o proscênio. Ney é o caso mais icônico. Está aí desde os Secos & Molhados. Rogéria, a princípio rechaçada por ser um homossexual assumidamente feminina, teve velório e enterro de celebridade. Laerte deixou de ser apenas um ótimo cartunista para ser a primeira crossdresser a sair do armário publicamente e ganhar notoriedade em revistas e programas de TV. Liniker superou o preconceito ainda mais arraigado na periferia e virou nome badalado em praias mais abastadas de música alternativa. Lea T deixou de ser “filho/a estranha” do jogador e campeão mundial Toninho Cerezo. É modelo de campanhas publicitárias. Johnny Hooker fez um barulho maior que seu talento, assumindo uma homossexualidade dândi, atacando a declaração do inatacável Ney.

Outra tendência do comportamento são as questões ligadas ao sexismo, que passou a ser matéria quase obrigatória nas escolas. A palavra poliamor circula com facilidade/tranquilidade nos corredores, recreios e salas de aula. Amar/namorar mais de uma pessoa, não importa o sexo, entrou, também, no radar da moçada. Do ponto de vista ortográfico (o plural de “aluno” agora é “alunx”, incluindo todos os gêneros e, assim, repete-se em tantas outras palavras), ou do ponto de vista prático, a vigilância sobre gênero deixou de ser tabu no mundo estudantil. Em escolas do segundo grau, é comum termos coletivos feministas, lutando pelos direitos de igualdades das adolescentes e jovens. Chegam a querer aulas de Educação Física de troncos nus, como os meninos e rapazes.

O Comportamento permeou ainda as repercussões do novo disco de Chico Buarque, antes unanimidade nacional. Tribunas digitais arvoraram-se como vigilantes da moral e dos bons costumes. Sem inteligência para distinguir autor de personagem, chamaram o compositor de machista. O “machismo”, de certa maneira, também acentua a atitude extremada conservadora de quem foi proibir exposições de obras de Arte – como ocorreu em Porto Alegre e São Paulo.

Sobre Antônio Mafra

Jornalista com mais de 35 anos de profissão. Atuou nas redações de O Globo, Revista Visão e Jornal da Tarde. Foi assessor de imprensa da Firestone, da Secretaria do Planejamento e da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Integrou a diretoria da Associação Brasileira de Marketing Promocional (AMPRO) e foi editor e publisher da revista Viver Psicologia. Desde 1989 está à frente da Textos & Ideias Comunicação, onde desenvolve também atividades de criação e produção de eventos socioculturais. Complementou sua formação acadêmica com o Master of Business and Administration Economia do Turismo pela Fipe - USP, onde também fez o curso de História (incompleto). Dá aulas de Escrita Possível e há mais de dez anos promove Cultura para seu grupo Amigos da Cultura.